A China e a Rússia têm um plano coordenado em três níveis para desativar o Starlink — desde pressão diplomática até à destruição física dos satélites em órbita.
O The Insider, em parceria com o Der Spiegel, o The Washington Post e outros meios, publicou esta semana uma investigação explosiva baseada em documentos confidenciais de fóruns militares secretos entre a Rússia e a China. Os encontros, realizados em Guangzhou em 2023 e organizados pela Academia de Ciências Militares do Exército Popular de Libertação (EPL), expõem uma cooperação técnica e militar que vai muito além do que Moscovo e Pequim admitem publicamente.
Os documentos mostram que a parceria “sem limites” entre os dois países já não é apenas uma declaração política. É um programa estruturado e multidisciplinar para desenvolver armas que nenhum dos dois conseguiria criar sozinho.
O plano para matar o Starlink
Uma das revelações mais impressionantes é uma apresentação dedicada a neutralizar a constelação de satélites Starlink da SpaceX, liderada por dois investigadores da China Aerospace Science and Technology Corporation (CASC). O documento, classificado como “interno”, propõe uma escada de escalada com três níveis.
O primeiro nível é diplomático: usar a densidade de satélites como argumento para construir uma coligação internacional que imponha limites regulatórios ao crescimento da constelação.
O segundo nível é mais agressivo: a China e a Rússia avançariam em conjunto com pedidos de faixas de frequência críticas e posições orbitais, bloqueando a expansão física do Starlink. Inclui também um sistema conjunto de interferência eletromagnética para bloquear seletivamente o sinal em áreas geográficas específicas.
O terceiro nível é a destruição física. O documento propõe começar com ciberataques — “spoofing de acesso, infeção por vírus e exploração de vulnerabilidades” para infetar os terminais dos utilizadores e propagar malware pela rede. Depois viria a eliminação dos satélites propriamente ditos, usando armas “de baixo custo” capazes de destruir satélites mais depressa do que a SpaceX os consegue lançar. Uma das hipóteses: projéteis de alta densidade, como rolamentos de esferas, lançados por um único foguete para pulverizar painéis solares e satélites inteiros.
Defesa antimísseis conjunta
Outro projeto revelado nos documentos é o “Kupol” (Cúpula), também designado como “Produto B”. Trata-se de um sistema conjunto de alerta precoce e defesa antimísseis, algo que a Rússia sempre recusou partilhar até com os seus aliados mais próximos. O sistema incluiria a criação de uma base de dados unificada de alvos e um grupo de trabalho técnico para desenvolver mecanismos conjuntos de interceção.
O responsável pelo projeto do lado chinês, um engenheiro-chefe conhecido como Zhao, fez pelo menos oito voos entre Pequim e Moscovo entre 2023 e 2025. Do lado russo, o responsável voou mais de dez vezes para a China e Hong Kong. Os documentos também referem que os oficiais envolvidos foram proibidos de usar telemóveis durante as reuniões.
Experiência de combate russa, tecnologia chinesa
Talvez o aspeto mais preocupante — e mais concreto — desta cooperação seja a troca de experiência de combate russa por tecnologia chinesa. A China tem 160 tipos de munições loitering (drones kamikaze) de mais de cinquenta fabricantes, mas quase zero experiência real de combate.
A Rússia, que está em guerra há mais de quatro anos, tem esses dados em abundância. A proposta, apresentada por Li Rong da Academia de Ciências Militares do EPL, formaliza esta troca: a Rússia partilha o que aprendeu no terreno, a China contribui com inteligência artificial e capacidade de produção em massa, e os dois países desenvolvem em conjunto a próxima geração de munições swarm autónomas.
Os resultados já são visíveis no terreno. Segundo documentos dos serviços de inteligência ucranianos de 2025, o drone autónomo V2U, agora usado pelas forças russas, funciona com módulos de IA chineses, sensores lidar chineses, baterias chinesas e solid-state drives chineses. A engenharia chinesa está a ser testada em combate real na Ucrânia.
O que isto significa
Esta investigação confirma aquilo que muitos analistas de segurança suspeitavam há meses: a neutralidade declarada da China na guerra da Ucrânia é uma ficção. O país não está apenas a fornecer componentes de uso dual à Rússia — está a co-desenvolver sistemas de armas, a testar a sua tecnologia em cenários de guerra real e a preparar-se para um conflito mais amplo com o Ocidente.
O antigo oficial da CIA Ed Bogan resume bem o sentimento: “Estas pessoas percebem fundamentalmente mal o mundo em que vivem e a verdadeira extensão do seu poder.”
O sexto fórum militar secreto sino-russo está agendado para o final de 2026, em São Petersburgo. Vai valer a pena estar atento.
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