Todas as quintas-feiras, o USPTO publica centenas de pedidos de patente. Esta semana, a fornada revelou para onde a indústria está realmente a olhar: substrato.
Todas as quintas-feiras, o USPTO (o departamento de patentes americano) publica centenas de novos pedidos. A grande maioria é pura rotina: ajustes defensivos, pequenas melhorias, papelada que ninguém fora de um escritório de advogados vai ler. Mas de vez em quando, uma fornada dá-nos uma pista clara de para onde a indústria está realmente a olhar. Esta semana foi uma dessas vezes.
A Patentlyze (um site que se dedica a ler patentes da Big Tech para que o resto de nós não tenha de o fazer) andou a vasculhar 320 documentos de 17 empresas publicados nesta última quinta-feira. Escolheram os dez mais interessantes. Eu li-os todos para perceber se havia um padrão. E há, sim. Mas não é bem o que eu estava à espera.
Samsung: o telemóvel que dobra duas vezes
A Samsung já vende dobráveis há anos. Esta patente mostra que quer ir para o triplo: um ecrã que dobra em duas linhas, rígido onde se toca, mas flexível onde é preciso dobrar. Ou seja, o vidro tem de ser as duas coisas ao mesmo tempo.
Diz-se que a Apple está a preparar o primeiro iPhone dobrável. Pelo menos no papel, a Samsung já vai duas dobras à frente. E isto faz-me pensar: a Apple vai chegar ao mercado quando já houver dobráveis há quase uma década. A estratégia de esperar que a tecnologia esteja madura é ótima para quem usa o produto, mas corre o risco de chegar demasiado tarde.
Apple: o headset que não pergunta sempre quem és
Se usas autenticação facial, sabes o irritante que é: verificas a tua identidade e, passados uns minutos, o sistema volta a pedir o mesmo. A Apple quer resolver isto no Vision Pro com rastreio de presença contínuo. O dispositivo verifica quem és uma vez e, depois, vai confirmando que continuas a ser a mesma pessoa. O headset não sai, o rosto continua lá.
Pode parecer um mero pormenor. Mas para um dispositivo que se usa durante horas, a diferença entre "funciona bem" e "não me enerva" está mesmo nos detalhes.
Google: calar tudo, exceto quem queres ouvir
O cancelamento de ruído tira o som de fundo, mas o Google quer ir mais longe: um filtro de voz que isola um único interlocutor e elimina todos os outros. E, a cereja no topo do bolo, corre 100% no próprio dispositivo.
É precisamente a parte do "corre no dispositivo" que interessa. O isolamento de voz a este nível normalmente precisa da cloud. Se funcionar localmente, pode ser usado numa chamada, num aparelho auditivo ou nuns earbuds, sem ter de mandar a conversa para os servidores de ninguém. Pondo a ética e a privacidade de lado, a questão prática é se funciona mesmo num ambiente barulhento. Porque se funciona, "mata" meio mercado dos headsets profissionais.
Nvidia: o robot que vai pescar a peça certa de um caixote
O problema clássico da robótica de armazém não é andar ou levantar caixas. É ir buscar uma peça específica a um monte desorganizado sem deitar tudo abaixo. Chama-se "bin picking" e é um daqueles problemas que parece simples, até tentarmos automatizá-lo.
A Nvidia tem uma patente para visão robótica que identifica e agarra um objeto específico no meio de vários empilhados. Se resolverem isto a sério, abre-se um segmento enorme na automação de armazéns. E a Nvidia não é propriamente conhecida por deixar oportunidades destas cair no chão.
Microsoft: memória de IA em lasers
A Microsoft registou uma patente para memória associativa ótica. A ideia é reconstruir um padrão a partir de um fragmento, mas usando luz em vez de transistores. A velocidade da luz, em vez de andar à espera do silício.
A computação ótica há décadas que é "a tecnologia do futuro". Está sempre a dez anos de estar pronta, tal como a fusão nuclear. Mas quando a Microsoft começa a patentear componentes óticos para IA, é sinal de que estão a bater nos limites do silício e à procura de alternativas a sério.
IBM: programar um computador quântico a rolar uma bola
Os computadores quânticos são difíceis de programar porque as operações básicas são rotações matemáticas que quase ninguém consegue visualizar na cabeça. A IBM quer resolver isto com uma interface física: uma bola real que, ao ser rolada, define as rotações que correspondem a operações quânticas.
O problema da computação quântica é ter mais pessoas que saibam programá-las, mais do que ter máquinas melhores. Esta patente mostra que a IBM percebeu isso. E ter percebido isto vale muito mais do que ter mais um qubit.
Meta: o teu corpo como fio condutor
Os wearables comunicam por Bluetooth, o que manda rádio em todas as direções e gasta bateria. A Meta quer criar uma body-area network (uma rede de área corporal) em que os dispositivos (óculos, relógio, earbuds) comunicam através da tua própria pele.
Gasta menos energia e é muito mais privado: não há sinal de rádio para ser intercetado do outro lado da sala. A Meta tem apostado tudo nos wearables nos últimos anos, e esta patente mostra que estão a pensar no problema de baixo para cima. Ou, melhor dizendo, de dentro para fora.
Sony: um dispositivo que decide se precisas de médico
Esta é, sem dúvida, a patente mais ousada e mais contestada da semana. A Sony registou um sistema que avalia o estado de saúde de uma pessoa e decide se precisa de tratamento, sem haver nenhum médico no circuito.
O USPTO já a rejeitou uma vez, e percebe-se porquê. Meter um algoritmo a decidir se alguém precisa de cuidados médicos é um passo gigante. Não é só uma questão técnica: é ética, legal e regulatória. Mas mostra que a Sony está a espreitar o mercado de saúde para o consumidor final. E quando a Sony espreita um mercado, normalmente acaba por entrar.
Zoox (Amazon): treinar robotaxis com carros normais
Não podes pôr robotaxis em todas as estradas antes de serem bons o suficiente para lá circular. A unidade de condução autónoma da Amazon, a Zoox, tem um truque: um conjunto de sensores montado num carro conduzido por humanos que recolhe exatamente os mesmos dados que um robotaxi recolheria.
Transformar carros normais em coletores de dados é muito mais barato e seguro do que andar a lançar frotas autónomas. É daquelas ideias que parecem óbvias depois de alguém as ter tido. Fica a pergunta: se é tão óbvio, porque é que ninguém o fez antes?
Disney: o carro da atração que é também o ecrã
O mais divertido fica para o fim. A Disney quer projetar vídeo em tempo real sobre os veículos em movimento dos parques temáticos. O carro da atração torna-se o ecrã, ajustando a imagem à medida que acelera, vira e muda de posição.
A magia da Disney sempre foi esconder a maquinaria. Esta patente é exatamente isso: transformar o veículo em parte do espetáculo, sem ecrãs visíveis, sem painéis, apenas projeção. É, de longe, a patente mais "Disney" que podiam ter registado.
O que todas elas nos dizem em conjunto
Li as dez uma a uma à procura de um tema comum. E encontrei-o. Não é "inteligência artificial" nem "computação mais rápida". É substrato. As empresas mais interessantes desta semana não estão a patentear novas aplicações. Estão a patentear novos materiais e novos meios para a computação "viver".
Luz em vez de eletrões. O corpo humano em vez de Bluetooth. Uma bola a rolar em vez de um teclado. Vidro que é rígido e flexível ao mesmo tempo. Um carro de parque temático que é também um ecrã.
Os comunicados de imprensa que vemos por esta altura falam-nos de modelos mais inteligentes. As patentes, essas, mostram-nos onde essa inteligência vai viver fisicamente: no hardware, no corpo, nos espaços e nos objetos à nossa volta.
Se queres saber o que vem aí, não olhes para os lançamentos. Olha para as patentes. São mais honestas e chegam sempre mais cedo.
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