Imagina que és um operador de desinformação na China. Tens uma missão: influenciar a opinião pública americana sobre inteligência artificial. Para isso, usas ChatGPT. O modelo de IA americano que o teu governo bloqueia.

A OpenAI publicou esta semana o June 2026 Threat Report. O documento descreve duas campanhas de influência chinesas que usaram ChatGPT para gerar desinformação. O relatório é detalhado e nota-se que a OpenAI quer mostrar trabalho.

Vale a pena lê-lo com atenção. Não para descartar o que diz, mas para perceber o que significa. E para ver onde a OpenAI pode estar a exagerar.

Neste artigo vou analisar o relatório, separar o que interessa do que é spin, e dar a minha opinião sobre o que isto nos diz sobre desinformação com IA.


O que o relatório diz

O documento descreve duas campanhas diferentes. Ambas com origem na China. Ambas a usar ChatGPT para criar e distribuir conteúdo.

Campanha 1: "Data Center Bandwagon"

Um grupo de contas ChatGPT foi apanhado a gerar comentários e imagens sobre data centers de IA. A narrativa era que os data centers estavam a aumentar os preços da eletricidade nos EUA.

Os operadores usaram VPNs para contornar o bloqueio chinês ao ChatGPT. Pediram explicitamente ao modelo código para automatizar logins e gerir interações em várias plataformas. Criaram personas falsas: imigrantes chineses nos EUA, trabalhadores, estudantes, mães, investidores.

O público-alvo principal era americano. Comentários curtos em inglês sobre custos de energia. O secundário era a diáspora chinesa, onde tentaram silenciar dissidentes como Li Ying com insultos coordenados.

Houve uma tática que não me lembro de ver em relatórios anteriores: encorajar um YouTuber, um ex-polícia chinês, a criticar os EUA. Isto sugere que os operadores perceberam uma coisa importante. Conteúdo "autêntico" de uma pessoa real tem mais alcance que mil comentários de bots. Usaram o ChatGPT para facilitar isso.

Campanha 2: "Tech and Tariffs"

Esta campanha focou-se em gerar comentários e cartoons políticos contra as políticas tecnológicas e tarifárias dos EUA. O conteúdo saiu em inglês, italiano, japonês e chinês tradicional, este último visava audiências em Taiwan.

Dois detalhes saltam à vista.

Primeiro: os operadores especificaram que os cartoons só deviam mostrar Trump, nunca Xi Jinping. É consistente com a política de "um país, dois sistemas" de desinformação. Crítica externa sem autocensura interna.

Segundo: pediram ao ChatGPT para desenhar um sistema de vigilância de opinião pública online. Scraping automático de "informação prejudicial" de "pessoas-chave". Um pedido que mostra o que estas equipas querem fazer quando tiverem recursos para escalar.

Houve também uma tentativa de desacreditar a própria OpenAI. Alegações falsas de que dados de utilizadores ChatGPT tinham sido comprometidos. Ataque ao mensageiro, versão 2026.


O preocupante (não é o engagement)

A OpenAI classifica ambas as campanhas como Category One na Breakout Scale. Atividade limitada a uma plataforma, sem evidência de expansão significativa. A maioria dos posts gerou pouco ou nenhum engagement. Nenhuma alegação falsa foi amplificada por contas autênticas de alto reach.

Ou seja: estas campanhas falharam. Ninguém lhes ligou nenhuma.

O que impressiona não é o resultado. É o processo. O que estas campanhas revelam sobre a profissionalização dos operadores.

Automação do workflow completo. Não se limitaram a gerar texto. Usaram ChatGPT para editar imagens, extrair usernames, formatar dados. Pediram código para automatizar todo o pipeline de distribuição. Isto não é um gajo numa cave a escrever comentários à mão. É uma operação com conhecimento de engenharia.

Análise de plataforma. Os operadores analisaram o Facebook em detalhe. Grupos, páginas, hashtags, sistemas de recomendação, anúncios. Tudo para maximizar o alcance do conteúdo. Sabiam como o algoritmo funciona e tentaram jogar com ele.

Evasão sistemática. Criaram contas de backup, separaram atividades operacionais em grupos distintos para evitar deteção, usaram VPNs. Pediram ajuda ao ChatGPT para otimizar a opacidade.

Pedido de sistema de vigilância. Para mim, este é o ponto mais grave. Pedir ao ChatGPT para desenhar um sistema de scraping de opinião pública mostra que os operadores estão a pensar em escala industrial. Não querem só comentar. Querem monitorizar e catalogar todo o espectro de opinião online, e responder-lhe.

A falha destas campanhas específicas não é garantia de que as próximas vão falhar. Estão a treinar e a testar, a preparar a próxima iteração.


A ironia (que ninguém no relatório sublinha)

O relatório menciona este ponto quase de passagem. Mas merece destaque. Usaram IA americana para gerar conteúdo contra IA americana.

Isto diz-nos várias coisas.

Os modelos chineses ainda não são bons o suficiente. Se os operadores preferiram usar ChatGPT, bloqueado na China e acessível só com VPN, em vez de modelos locais como Ernie Bot ou DeepSeek, isso é um sinal claro. A China está a investir milhares de milhões em IA, mas os seus operadores de desinformação preferem o produto americano. Diz muito sobre a qualidade relativa dos modelos.

As salvaguardas são contornáveis. O ChatGPT tem proteções contra abusos. Mas com prompting criativo e engenharia social, os operadores conseguiram gerar conteúdo político, imagens manipuladas e até planos para sistemas de vigilância. As guardrails existem. Não são impenetráveis.

A China tem a sua própria estratégia de operações cibernéticas. O relatório menciona paralelos com campanhas de desinformação anteriores. Ataques a empresas ocidentais de terras raras como Lynas e Appia, em 2022-2023. O padrão é consistente. Beijing vê IA como prioridade estratégica e ataca empresas e políticas ocidentais no setor. A diferença agora é que têm IA para escalar o que antes era manual.


Ceticismo saudável

Agora, o outro lado da moeda.

A OpenAI não é uma entidade neutra a publicar este relatório. Tem incentivos claros.

Mostra que está a ser proativa na segurança. Bom para a imagem, bom para lidar com reguladores. Justifica controlos mais apertados no ChatGPT. "Vejam, precisamos destas restrições." Alimenta a narrativa de que IA americana precisa de proteção contra atores estrangeiros. Útil para lobbying. E distrai de outras questões, como a forma como a OpenAI treina modelos com dados públicos ou como lida com privacidade.

A classificação Category One é um dado importante neste contexto. Significa que nenhuma das campanhas saiu da plataforma. Foram detectadas e contidas. O impacto real foi mínimo. Se a OpenAI estivesse a enfrentar uma ameaça séria, estaríamos a falar de Category Three ou Four.

Dito isto, o facto de terem sido contidas não significa que não existam. A pergunta que fica é: quantas operações passam despercebidas?

A OpenAI deteta o que consegue detetar. Opera dentro do seu ecossistema. Fora dele, no Facebook, no X, no Reddit, em fóruns especializados, o que está a acontecer? Não faço ideia. E isso incomoda-me mais que este relatório.


O padrão

O relatório compara estas campanhas com operações anteriores de desinformação da China. O padrão não é novo:

Período Alvo Tática
2022-2023 Empresas de terras raras (Lynas, Appia) Comentários falsos em artigos financeiros
2024 Vacinas e políticas COVID Desinformação sobre eficácia
2026 IA americana e políticas tech Conteúdo gerado por ChatGPT + cartoons

O que mudou não é a intenção. É a escala potencial. Antes uma operação destas precisava de dezenas de pessoas a escrever comentários. Agora, um script com acesso à API pode gerar milhares.

O contexto geopolítico também é relevante. As campanhas ocorreram durante uma escalada da guerra comercial. Trump anunciou tarifas adicionais de 100% sobre bens chineses. Tudo na sequência da Quarta Sessão Plenária do PCC, que elevou IA a prioridade estratégica no 15º Plano Quinquenal.

Não é coincidência. A desinformação segue a diplomacia.


O que fazer com isto

Vou tentar não acabar com um "o futuro é sombrio, estamos perdidos". Porque não estamos. Mas precisamos de ser realistas.

Transparência das plataformas. O relatório da OpenAI é um bom exemplo. Mais empresas deviam publicar este tipo de dados. A transparência permite que investigadores, jornalistas e o público vejam o que está a acontecer.

Salvaguardas nos modelos. As guardrails existem, mas precisam de evoluir. O facto de um operador conseguir pedir a um LLM para desenhar um sistema de vigilância de opinião pública é preocupante. Isto não é censura, é responsabilidade de produto.

Literacia mediática. O problema não é só técnico. É humano. Uma população que sabe identificar desinformação é a melhor defesa. Isto devia ser ensinado nas escolas, falado nos media, discutido em casa.

Cooperação internacional. A desinformação não respeita fronteiras. Respostas nacionais fragmentadas não funcionam. Precisamos de acordos, padrões e mecanismos de resposta coordenada.

Não entrar em pânico. A categoria máxima de ameaça da OpenAI para estas operações foi a mais baixa. Foram detectadas, analisadas e contidas. O sistema funciona, para já. Mas só se continuarmos a investir na sua manutenção.


Conclusão

O relatório da OpenAI é um documento útil. Bem escrito e detalhado. Vale a pena ler. Mas deve ser lido como o que é: um relatório de threat intelligence de uma empresa que tem tanto de informar como de se promover.

A China está a usar IA para desinformação. Sim. Mas está a fazê-lo mal, com pouco impacto, e a ser apanhada. Não é razão para complacência nem para alarmismo. É um sinal de que o sistema de deteção está a funcionar, pelo menos dentro do ecossistema da OpenAI.

Fora dele, no resto da internet, não sabemos o que está a acontecer. E essa é a parte que devia preocupar-nos mais.

Se quiseres ler o documento original, está aqui.

Recursos adicionais

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