“AI is the continuation of the computer revolution. I love computers so much.”

O George Hotz — o miúdo que hackeou o iPhone aos 17 anos, que deu jailbreak à PlayStation 3, e que depois passou uma década a tentar fazer carros autónomos na comma.ai — escreveu qualquer coisa rara: um post claríssimo sobre o estado da IA em 2026.

Dá pelo título I love LLMs, I hate hype. E é exatamente o que diz.

Neste texto, não vou resumir o artigo dele. Vou antes refletir sobre as partes que mais me ressoaram. Porque ele toca em dois nervos que andam a ser massajados por Silicon Valley inteiro.



O problema do hype negativo

O Hotz identifica dois tipos de hype que o fodiam. O primeiro é o hype negativo — aquela conversa constante de que a janela está a fechar-se, de que estás a ficar para trás, de que se não te mexeres agora vais pertencer a uma subclasse perpétua.

Isto é tóxico. E é deliberado.

Quem alimenta este medo não quer que sejas melhor. Quer que te mudes para San Francisco. Quer que entres no ciclo do fundraising, do networking, das parties certas. Quer que sintas que o mundo vai acabar amanhã e que a única maneira de escapar é pagar bilhete de entrada.

O problema é que isto funciona. O FOMO vende. Mas Hotz está certo: não é verdade. A IA não é um comboio a sair da estação. É uma ferramenta que está a evoluir, sim, que vai mudar tudo, sim, mas não ao ritmo que os venture capitalists querem que acredites — porque eles precisam que acredites para justificar os valuations de 300 mil milhões.



O hype positivo é igualmente estúpido

Depois há o oposto: o hype positivo dos doomers e dos accelerationists. “Vai sugar toda a matéria do universo”. “Vai chegar a AGI em 18 meses”. “Vai ser um flash de luz no céu e tudo muda”.

Hotz diz algo brutal sobre estas pessoas: “this is how they feel inside all the time themselves”. Estão a projetar o vazio que sentem. Não é sobre tecnologia. É sobre eles.

A IA não vai comer o universo. O que está a acontecer é mais simples — e mais bonito: a computação está a continuar a sua revolução. A Lei de Moore, o progresso geral, os transformers — tudo isto são passos naturais. As frontier labs gostam de se apropriar do mérito, mas a verdade é que a IA está a acontecer apesar delas, não por causa delas.

O argumento do Hotz no post anterior, The Doom Justifies the Valuation, é perfeito: não é que a IA não vá criar valor. É que eles não vão capturar esse valor. O medo da commoditização é o que move a conversa anti-open-source. É o medo de que o trabalho deles se torne um commodity.



Programar está a mudar — e isso é bom

Hotz admite que foi duro no post The Eternal Sloptember. Mas há nuance. Ele agora diz que está a tirar proveito real dos LLMs para programar. Não é uma bala mágica — “they can increase cognitive fatigue”. O vibe coding continua a ser slop (e onde é que está todo esse software mágico que a produtividade devia ter criado? Pergunta pertinente).

Mas os LLMs são úteis. Como find and replace. Como regex. Como Stack Overflow.

A analogia com compiladores é forte: o Linus Torvalds disse que agents dão 10x de produtividade, compiladores deram 1000x. O Hotz acha que são estimativas exageradas, mas captam a direção certa.

Programar está a mudar. E está tudo bem. A programação sempre mudou. É uma skill nova, e quem a dominar vai estar melhor. Ponto.



O que fica

O que mais gosto neste texto do Hotz é a honestidade. Ele não está a vender nada. Não está a fazer hype. Está só a dizer: “I love computers so much”.

Há uma pureza nisto. Num mundo onde todos os dias há um novo take explosivo sobre IA, onde cada tweet parece desenhado para te deixar ansioso, ler alguém que diz “gosto disto, não gosto da treta à volta” é como um copo de água fresca.

A IA é a continuação da revolução dos computadores. Nem mais, nem menos.

E nós, que amamos computadores, que nunca precisámos de San Francisco para fazer coisas fixes — estamos no sítio certo.

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