O macOS 27 Golden Gate fecha o livro dos Intel Mac. Vinte anos depois de Steve Jobs ter subido ao palco da WWDC 2005 para anunciar a transição da PowerPC para a Intel, o ciclo está completo. A Apple voltou a fazer exatamente o mesmo, só que com os seus próprios chips.
Para quem não acompanhou a WWDC deste ano, o macOS 27 Golden Gate tem uma particularidade histórica: é a primeira versão do macOS que não corre em Intel Macs. Os Macs com chip Intel que suportam o macOS 26 Tahoe ainda vão receber atualizações de segurança por mais dois anos, e o Rosetta continua disponível por tempo indeterminado. Mas o sinal está dado. A Apple fechou a porta.
Isto não é uma notícia de última hora. A Apple anunciou a transição para Apple Silicon em 2020 e completou-a em 2023 com o Mac Pro. Mas 2026 é o ano em que o Intel Mac deixa realmente de ser suportado. E parece-me um bom momento para olhar para trás e perceber o que esta história nos ensina sobre estratégia tecnológica, dependência de fornecedores, e porque é que a Apple estava numa posição única para fazer o que fez.
O que pouca gente sabe: o Project Marklar
A história começa muito antes de 2005. Em junho de 2000 (sim, cinco anos antes do anúncio público), um engenheiro da Apple chamado JK Scheinberg propôs criar uma versão do Mac OS X (ainda em desenvolvimento na altura) para processadores Intel. O projeto chamava-se Marklar, começou como um projeto paralelo de um engenheiro, e cresceu para uma dúzia de pessoas em 2002.
Isto é relevante porque mostra que a Apple nunca esteve totalmente confortável com a PowerPC. Jobs prometeu que o G5 chegaria aos 3 GHz num ano. Nunca aconteceu. O G5 nunca conseguiu entrar num portátil. Tim Cook descreveu o problema como “the mother of all thermal challenges”, e não estava a exagerar. O G5 dissipava tanto calor que era inviável para um computador portátil.
A IBM também não estava interessada em dedicar recursos a um chip de baixo volume. A Apple vendia cerca de 3 milhões de Macs por ano em 2003, uma gota no oceano comparado com o mercado x86. A PowerPC estava a morrer, e a Apple estava presa a uma plataforma sem futuro.
Quando Jobs anunciou a transição para Intel em junho de 2005, revelou algo que poucos esperavam: “Cada versão do Mac OS X nos últimos cinco anos foi compilada para PowerPC e Intel em paralelo.” A Apple tinha estado a preparar o terreno em segredo durante meia década.
Os anos dourados (2006-2015)
A transição para Intel correu mais depressa que o previsto. Em janeiro de 2006 chegaram os primeiros iMacs e MacBook Pros com Intel. Em agosto de 2006, a transição estava completa. Oito meses depois do primeiro modelo.
O que a Intel permitiu à Apple foi notável. O MacBook Air de 2008 usava um processador Core 2 Duo especial, 60% mais pequeno que o normal, desenhado a pedido da Apple. Os ecrãs Retina no MacBook Pro de 2012 eram impossíveis com a PowerPC. A Apple passou de 32-bit para 64-bit num ano. Com a Intel, bastava mudar para o Core 2 Duo.
A parceria foi produtiva para ambos. A Intel ganhou prestígio e visibilidade num mercado que até então dominava apenas nos PCs Windows. A Apple ganhou acesso à cadeia de fornecimento mais madura do mundo dos semicondutores e a uma roadmap de processadores que, na altura, era a melhor disponível.
Boot Camp permitia correr Windows nativamente no Mac, o que resolveu o problema de compatibilidade para quem precisava de software que só existia em Windows. Foi uma alavanca comercial importante para convencer utilizadores a trocar.
O ponto de viragem: quando a Intel começou a tropeçar
Por volta de 2015, começaram a aparecer fissuras. O modelo Tick-Tock da Intel (uma arquitetura nova num ano, um processo novo no ano seguinte) começou a falhar. O processo de 14 nm atrasou-se. O Skylake, lançado em 2015, tinha bugs arquitetónicos.
E foi aqui que a Apple começou a notar. François Piednoël, um ex-engenheiro da Intel, disse numa entrevista algo que acho revelador: “A Apple tornou-se a número um na submissão de problemas na arquitetura… Quando o teu cliente começa a encontrar quase tantos bugs como tu, não estás a ir no caminho certo.”
Eu acho que este ponto é subestimado na narrativa da transição para Apple Silicon. Muita gente pensa que a Apple mudou para ARM porque queria mais eficiência. Isso é verdade, mas não é a história completa. A Apple mudou porque a Intel deixou de ser fiável.
Os 10 nm da Intel atrasaram-se anos. O que devia ter chegado em 2016 apareceu em 2019, e mesmo assim com rendimentos baixos. Entretanto, a Apple tinha os seus próprios chips (A4, A5, e por diante) a evoluir de forma consistente, ano após ano, sem atrasos, sem promessas vazias. Em 2018, o chip A12X Bionic do iPad Pro tinha performance single-core que rivalizava com um Core i7 de 2018, mas consumia uma fração da energia.
A diferença não era apenas técnica. Era cultural. A Intel prometia e falhava. A Apple prometia e entregava.
A ponte: T1 e T2
Um detalhe técnico interessante que o artigo da Ars Technica refere é o papel dos chips T1 e T2 como ponte entre Intel e Apple Silicon.
O T1 apareceu no MacBook Pro com Touch Bar em 2016. Era essencialmente um processador Apple Watch (baseado no S1) que gería o Touch Bar e a Secure Enclave. Depois veio o T2, baseado no A10, que assumiu o controlo do SSD, do encoding/decoding de vídeo, e de mais periféricos.
Os dois chips corriam bridgeOS, um sistema operativo intermédio que fazia a ponte entre o ecossistema Apple Silicon e o processador Intel principal. Quando olho para isto com a visão de 2026, parece-me evidente que a Apple estava a ensaiar a transição há anos. Cada funcionalidade que migrava para o T1/T2 era uma funcionalidade que não precisava de ser reescrita quando o chip principal passasse a ser Apple Silicon.
Foi uma estratégia de transição disfarçada de funcionalidade.
Apple Silicon: o que a Intel nunca poderia dar
Tim Cook anunciou a transição para Apple Silicon na WWDC de 2020. O M1 chegou em novembro desse ano. E a diferença foi imediatamente óbvia para quem usou um.
O M1 não era apenas mais rápido que o Intel equivalente: era mais rápido e consumia muito menos energia. Um MacBook Air M1 não tinha ventoinha e era mais rápido que um MacBook Pro Intel de 2019 que parecia um aspirador.
O que veio depois (M1 Pro, M1 Max, M1 Ultra, M2, M3, M4) mostrou que a Apple não estava a brincar. O Mac Studio com M1 Ultra (e depois M2 Ultra) é o exemplo perfeito: uma máquina que cabe debaixo do monitor e entrega performance que num Intel exigiria uma torre com refrigeração líquida.
O que a Apple conseguiu com Apple Silicon não foi apenas melhor performance. Foi uma mudança de paradigma na relação entre performance e energia. A Intel nunca conseguiria dar à Apple o que os seus próprios chips lhe deram, porque a Intel estava limitada por décadas de compatibilidade x86, por uma base instalada gigante, e por um modelo de negócio que não priorizava eficiência energética.
A Apple estava numa posição única para fazer esta transição porque já tinha:
- Anos de experiência em design de chips. Desde o A4 (2010) até ao A12Z, a Apple tinha acumulado talento e conhecimento.
- Controlo total do software. macOS é da Apple, ponto final. Ninguém mais precisa de o suportar.
- Capacidade financeira. A transição custou milhões em desenvolvimento, mas a Apple podia pagar.
- Sem herança de compatibilidade. A Apple não tinha de suportar 30 anos de software x86; podia quebrar compatibilidades com Rosetta e seguir em frente.
- Relações com a TSMC. Que lhe garantiam acesso aos melhores processos de fabrico, incluindo os 3 nm que a Intel nunca conseguiu.
E a decisão certa?
Vamos ao que interessa: a Apple tomou a decisão certa?
A resposta curta: sim, e nem é perto.
A resposta longa: a Apple fez a transição para Intel em 2005-2006 pela mesma razão que fez a transição para Apple Silicon em 2020-2023: “looking for a more compelling processor roadmap and the best possible performance-per-Watt”, como diz o artigo da Ars. A Apple não é leal a nenhum fornecedor. É leal ao seu próprio roadmap.
A decisão de depender da Intel em 2005 foi acertada. Sem Intel, não haveria MacBook Air, não haveria ecrãs Retina em portáteis, e muito provavelmente o Mac teria morrido como plataforma. A PowerPC estava a definhar e não havia alternativa no mercado.
A decisão de abandonar a Intel em 2020 também foi acertada. A Intel estagnou, os seus 10 nm nunca chegaram a tempo, e a Apple tinha um chip próprio que era claramente superior.
Mas o que acho mais interessante é que a Apple fez a mesma coisa duas vezes, em direções opostas, e acertou nas duas. Isto diz-nos algo sobre estratégia tecnológica que vale a pena reter.
Moral da história
Na minha opinião, o que a história do Intel Mac nos ensina é que a integração vertical não é uma ideologia. É uma ferramenta. A Apple não integra verticalmente por princípio. Integra quando lhe dá vantagem competitiva, e recorre a parceiros quando a vantagem está fora.
A Apple dependeu da IBM para PowerPC. Depois da Intel para x86. Agora depende da TSMC para fabrico e da ARM para o conjunto de instruções (embora com licenças especiais que lhe permitem customização profunda). O que a Apple controla é o design do chip, a integração com o software, e a experiência do utilizador. O que não controla (fabrico, instruções base) trata como parcerias táticas, não estratégicas.
A segunda lição é sobre timing. A Apple esperou vinte anos entre o Project Marklar e o Apple Silicon. A semente da transição foi plantada muito antes de ser visível. A Apple não fez a transição para Apple Silicon de um dia para o outro. Preparou o terreno durante anos, desde o chip A4 no iPhone 4, passando pelo T1/T2 no Mac, até ao Rosetta 2 e ao Universal Binaries.
A terceira lição é sobre dependência de fornecedores. Nenhuma empresa é um parceiro fiável para sempre. A IBM abandonou a Apple quando os volumes não compensavam. A Intel deixou de inovar quando o monopólio lhe tirou a pressão. A Apple percebeu que a única forma de garantir o seu futuro era ter controlo sobre os seus próprios componentes críticos.
Vinte anos depois de Steve Jobs ter anunciado a transição para Intel, o ciclo fechou-se. O macOS 27 não corre em Intel Macs. O Mac já não precisa da Intel. E a Apple que saiu desta história é muito mais forte. Não apenas porque tem melhores chips, mas porque aprendeu que a inovação a sério não se delega.
Recursos
- Ars Technica: 20 years of Intel Macs
- Wikipedia: Apple’s transition to Intel processors
- Wikipedia: Apple Silicon
- Ars Technica: The Story of Marklar
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