O GitHub continua a crescer — um novo utilizador por segundo, mais de 600 milhões de repositórios. Mas por baixo dos números, há uma inquietação que não está a passar despercebida.


Não é segredo que o GitHub é a plataforma dominante no alojamento de código. Desde que a Microsoft a comprou em 2018 por 7.5 mil milhões de dólares, o serviço só cresceu. Em 2025 foram registados cerca de mil milhões de commits. Mas se fores a um fórum de developers hoje, encontras um descontentamento que não existia há cinco anos.

Projetos de renome estão a sair. Ghostty, o terminal emulator cross-platform criado por Mitchell Hashimoto (co-fundador da HashiCorp), anunciou em abril que vai abandonar o GitHub. O Zig, a linguagem de programação que muitos vêem como sucessora espiritual do C, saiu em novembro de 2025. O Tenacity, fork do Audacity, fez a mudança em 2023. Nem sequer estão a olhar para trás.

A pergunta que muitos fazem: isto é uma tendência ou apenas uma exceção barulhenta?


O que está a correr mal no GitHub

Os motivos dividem-se em três categorias. E vale a pena olhar para cada uma.

Qualidade técnica. O IncidentHub registou 112 horas de indisponibilidade no GitHub entre maio de 2025 e maio de 2026, distribuídas por 48 “major outages”. O pior mês foi fevereiro de 2026 com cerca de 37 incidentes. Não são apenas falhas menores — o GitHub Actions e o Copilot são os serviços mais afetados. Para equipas que dependem de CI/CD para entregar software, cada hora de downtime é dinheiro perdido. O Ghostty e o Zig citaram exatamente este problema como motivo principal.

Política. Andrew Kelley, criador do Zig, mencionou a relação do GitHub com o ICE (Imigração e Alfândega dos EUA) — um contrato de 200 mil dólares que já tinha gerado críticas internas em 2019. A Microsoft não é uma empresa neutra, e para developers que se preocupam com o alinhamento político da plataforma que usam, isto pesa.

Inteligência Artificial. O Copilot está cada vez mais integrado no GitHub. Em 2025, o CEO Thomas Dohmke disse: “Ou abraças a IA, ou mudas de carreira.” Para muitos developers, esta posição sente-se como uma imposição, não como uma escolha. Projetos que preferem manter uma abordagem mais conservadora em relação a IA sentem-se empurrados para fora.

Mitchell Hashimoto resumiu o sentimento melhor do que ninguém: “Já não é um sítio divertido para estar. Quero estar lá, mas a plataforma não me quer lá. Quero fazer trabalho, mas ela não me deixa fazer trabalho. Quero lançar software, e ela não me deixa lançar software.”


Codeberg: a alternativa que está a ganhar tração

O Codeberg é provavelmente o caso mais interessante. É uma organização sem fins lucrativos, registada na Alemanha, que usa o Gitea (um fork do Gogs escrito em Go) como motor. Oferece praticamente tudo o que o GitHub oferece: issue tracking, CI/CD, hosting de páginas estáticas.

Vários projetos que saíram do GitHub escolheram o Codeberg como destino principal. A vantagem é clara: não há uma empresa com lucro a ditar a direção do produto. Não há um conselho de administração a fazer contratos com agências de imigração. É uma cooperativa de developers, gerida por developers.


Self-hosting: o caminho para quem quer controlo total

Há quem prefira ir ainda mais longe. Com ferramentas como o Gitea, o Forgejo ou o Sourcehut, podes montar o teu próprio servidor Git num Raspberry Pi e ter controlo absoluto sobre os teus repositórios.

O Sourcehut, por exemplo, é completamente open-source e promove um workflow baseado em email — uma abordagem mais tradicional que muitos veteranos preferem. O GitLab também tem uma versão self-hosted que é usada por empresas que precisam de compliance e controlo de acesso rigoroso.

Há até movimentos organizados a incentivar esta migração, como a campanha “GiveUpGitHub” da Software Freedom Conservancy, que disponibiliza guias para fazer a transição.


O que é que isto significa para o developer comum?

Para o developer que usa o GitHub todos os dias, esta discussão pode parecer distante. O GitHub funciona, tem integrações com tudo, e a rede de contribuições open-source está toda lá. Sair dá trabalho.

Mas o que está a acontecer com projetos como Ghostty e Zig não é apenas ruído. É um sinal de que a centralização à volta de uma única plataforma privada começa a mostrar fissuras. O Git é supostamente um sistema descentralizado — e no entanto, a grande maioria dos repositórios está num único serviço controlado por uma empresa.

Não estou a dizer que toda a gente deva sair do GitHub hoje. Mas acho que vale a pena estar atento. Ter um mirror no Codeberg, experimentar self-hosting com Gitea, ou simplesmente saber que alternativas existem — isso já é um passo. Porque, como diz o ditado, não ponhas todos os ovos no mesmo cesto. E muito menos num cesto que já mostrou que parte com frequência.


Recursos adicionais

Comentários (0)

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro!

Deixar comentário