A reescrita do Bun em Rust — como está a correr?
O Bun, runtime JavaScript escrito em Zig, está a ser reescrito em Rust. O que mudou, o que melhorou, e o que ainda falta.
Lembro-me de quando o Bun apareceu. Era 2023, e o Jarred Sumner apresentou um runtime JavaScript mais rápido que o Node e o Deno, escrito em Zig. Era fresco, era rápido, e toda a gente o adotou para desenvolvimento local. Depois a Anthropic comprou a Oven (a empresa por trás do Bun) e as coisas ficaram estranhas.
A 27 de julho de 2026, Tom Lockwood publicou uma análise detalhada de como está a correr a reescrita do Bun de Zig para Rust. O artigo chegou ao Hacker News e desencadeou uma discussão sobre os números reais por trás do marketing da Anthropic.
Os números que a Anthropic contou
A 8 de julho, Jarred Sumner anunciou que o Bun tinha sido reescrito em Rust. O trabalho foi feito entre 3 e 14 de maio de 2026 — 11 dias — e custou $165,000 em chamadas à API da Anthropic. Quem fez a maior parte da reescrita foi o próprio Claude, através do Claude Code.
$15,000 por dia parece muito. Mas para uma reescrita de 535 mil linhas de código, é uma ordem de magnitude abaixo do que custaria uma equipa de engenheiros durante meses. A Anthropic usou esta história como prova de que os seus modelos conseguem fazer o trabalho de maintainers open-source — mais rápido e por menos dinheiro.
Lockwood decidiu verificar.
O que Lockwood encontrou
Clonou o repositório do Bun: 1.23 GB, mais de 1.2 milhões de objetos. E descobriu que, seis semanas depois da reescrita ter sido merged para main, ainda não havia release tag. O último release foi a 12 de maio de 2026 (bun-v1.3.14). Onze semanas sem release — um intervalo nunca visto desde o fim de 2022.
Depois olhou para os pull requests. A 9 de julho, havia 1277 PRs abertos do robobun (o bot que representa o Claude Code). A 27 de julho, esse número subiu para 2475. A taxa de merge, com os checks de CI a demorar 40-90 minutos cada, significa que limpar o backlog atual demoraria 86 dias de pipeline contínuo.
Lockwood também analisou os commits. A maioria do código Rust no repositório foi gerada pelo Claude e por engenheiros da Anthropic — não por maintainers da comunidade. O spike de commits coincide exatamente com o início da reescrita. E desde então, o envolvimento humano da Anthropic tem aumentado, não diminuído.
O que está realmente a acontecer
O post do Lockwood não é uma crítica à qualidade do código. É uma crítica à narrativa. A história de “reescrevemos o Bun em 11 dias por $165k” omite várias coisas: o custo do CI (que não para), o trabalho humano contínuo de engenheiros da Anthropic, o backlog de 2475 PRs por fazer merge, e o facto de 11 semanas depois ainda não haver release.
A reescrita aconteceu. O código está em Rust. Mas o projeto não está “pronto” — está num estado de transição permanente, alimentado por geração automática de código que precisa de supervisão humana constante para não colapsar.
Isto devia ser um aviso para quem acha que os coding agents vão substituir developers. O código foi gerado. Mas o trabalho de integrar, testar, corrigir e manter — esse continua a ser humano.
Atualização (11 de outubro de 2026): desde o artigo do Lockwood, o repositório do Bun voltou a ter releases, com a 1.4.0 a 20 de agosto e versões seguintes até à 1.4.3, de 10 de outubro. A ausência de release que o artigo criticava já foi ultrapassada, embora isso não responda às perguntas dele sobre o custo real da reescrita.
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