Lembro-me bem do dia em que descobri a Biosphere 2. Estava a ver um documentário sobre habitats extraterrestres — daqueles que passam às 2 da manhã no National Geographic — e apareceu uma estrutura de vidro no deserto do Arizona. Parecia cenário de filme de ficção científica. No dia seguinte, já estava a ler tudo o que encontrava sobre o projeto. Quanto mais lia, mais me fascinava — e mais percebia que a história real era bem diferente da que os jornais contaram.

No meio do deserto do Arizona, brilhando ao sol, há um complexo de pirâmides, domos e torres de vidro. Espalhada por 1,2 hectares, a estrutura alberga uma floresta tropical com uma cascata de 7,6 metros, uma savana, um deserto costeiro e um oceano maior que uma piscina olímpica — com recife de coral vivo. Chamam-lhe Biosphere 2, em referência direta à nossa própria casa: a Biosphere 1, o planeta Terra.

Construída entre 1984 e 1991 com um investimento de 150 milhões de dólares do bilionário Ed Bass (cerca de 440 milhões em valor atual), foi a maior estrutura hermeticamente selada já construída. A ideia não era apenas criar uma réplica da Terra. Era perceber se conseguiríamos levar connosco os ecossistemas que nos sustentam, seja para uma colónia em Marte ou para viver de forma mais equilibrada aqui mesmo.

O que se seguiu foi uma das experiências científicas mais ambiciosas do século XX. E um dos maiores fracassos mediáticos. Mas, para mim, o mais interessante é o que veio depois.


1. A Experiência Mais Ampla do Século XX

Setembro de 1991. Oito pessoas — quatro homens, quatro mulheres — fecham-se dentro da Biosphere 2. Durante dois anos, vão cultivar a própria comida, reciclar a própria água e respirar o ar que as plantas produzem. O objetivo é descobrir se um grupo de humanos consegue manter um sistema fechado de suporte de vida.

“Nenhum de nós tinha a certeza de que conseguiríamos aguentar dois anos”, lembra Mark Nelson, um dos oito biospherianos e hoje diretor do Institute of Ecotechnics.

Ao contrário do que muitos pensam, o projeto não nasceu como simulação de colónia espacial. As raízes são ambientais. O grupo que o criou — liderado por John Allen — vivia numa eco-aldeia no Novo México e queria perceber como a tecnologia podia ajudar a humanidade a coexistir pacificamente com a natureza.

Cada ecossistema foi desenhado com vegetação, insetos, peixes e aves. Um sistema subterrâneo de tubagens controlava temperatura e humidade. As águas residuais eram recicladas para irrigação. A água potável vinha da condensação dos aparelhos de ar condicionado. A ideia era que a Biosphere 2 funcionasse durante cem anos. Durou dois. Mas o que aconteceu nesses dois anos mudou a nossa forma de pensar o planeta.


2. O Que Correu Mal (e Porquê)


Oxigénio a pique

Passados 16 meses de isolamento, o oxigénio caiu de 21% para 14% — o equivalente a viver a mais de 3300 metros de altitude. Os biospherianos sentiam-se fracos, com sintomas de mal de montanha. Foi necessário injetar oxigénio suplementar.

A causa? Os solos. Os solos jovens e ricos em matéria orgânica que tinham sido introduzidos para acelerar o crescimento das plantas estavam cheios de bactérias e fungos. Como nós, esses microrganismos consomem oxigénio e libertam CO2. As árvores eram demasiado jovens para compensar.

“O microbioma do solo, mesmo que não o vejamos, é extremamente influente”, diz John Adams, diretor-adjunto da Biosphere 2. Foi uma lição que ninguém esperava.


O desaparecimento dos polinizadores

As formigas longhorn crazy ants proliferaram e dizimaram abelhas e outros polinizadores. Outra hipótese é que o vidro bloqueava a radiação ultravioleta — essencial para os insetos encontrarem flores. Os biospherianos acabaram a polinizar algumas plantas à mão.


Árvores sem vento

Sem vento, as árvores não produziram o “lenho de stress” que as fortalece. Tornaram-se frágeis e partiam com facilidade. Um pormenor que ninguém tinha considerado e que mostra como subestimamos as forças mais básicas da natureza.

A imprensa não perdoou. A Biosphere 2 foi apelidada de “fracasso” e “disparate new age”. Mas os cientistas viam algo diferente.

“Em ciência, não há experiências falhadas. Há resultados que não esperávamos.” — John Adams


3. O Ressurgimento Científico

Depois da experiência original, a gestão passou para a Universidade do Arizona. Foi aí que a Biosphere 2 renasceu. Os ecologistas perceberam algo fundamental: normalmente estudamos a natureza depois de ela ser atingida por uma seca ou vaga de calor. A Biosphere 2 permite fazer o contrário — recriar as condições do futuro e ver como os ecossistemas reagem.


Lições para o clima

A floresta tropical tornou-se um laboratório único. Num estudo, os cientistas aumentaram a temperatura e descobriram que as florestas são resistentes ao calor — o verdadeiro problema é a seca que vem com o aquecimento.

Christiane Werner, ecologista da Universidade de Friburgo, expôs a floresta a uma seca de 70 dias. Descobriu que algumas árvores sobrevivem ao procurar água em camadas profundas do solo, e que árvores sob stress libertam mais monoterpenos — compostos que podem formar partículas no ar e servir de sementes para nuvens de chuva.

“Consegues sujeitar uma floresta inteira a uma seca e monitorizar todos os processos ao longo do caminho.” — Christiane Werner


O recife de coral

O mini-oceano foi palco de um dos primeiros estudos a demonstrar que a acidificação dos oceanos — causada pela absorção de CO2 — dificulta o crescimento dos corais. Hoje, os cientistas simulam vagas de calor extremo para testar se probióticos podem tornar os corais mais resistentes.


4. A Lição Mais Importante

Se há uma conclusão que me marcou, entre tudo o que li sobre o projeto, é esta: a Biosphere 2 mostrou como é difícil replicar os serviços que a Terra nos oferece de graça.

David Tilman, ecologista da Universidade de Minnesota, estima que uma colónia espacial nos moldes da Biosphere 2 custaria 82.500 dólares por pessoa por mês — sem garantia de sustentar vida. “Acredito firmemente que este é realmente o nosso único planeta.”

Mark Nelson descreve a transformação pessoal que sentiu ao perceber que a sua sobrevivência dependia inteiramente da saúde dos ecossistemas à sua volta — cada planta que produzia oxigénio era preciosa, cada resíduo tinha de ser pensado. “Estar num sistema pequeno onde vês que és parte desse sistema, e que esse sistema é o teu suporte de vida, muda a forma como pensas a um nível profundo.”

Lisa Rand, historiadora da ciência no Caltech, acredita que o projeto estava à frente do seu tempo. A forma como foi conduzido — financiado por um particular, liderado por generalistas — chocava com a rigidez académica dos anos 90. Hoje seria menos controverso.

John Adams espera que a Biosphere 2 faça pela ecologia o que o Large Hadron Collider fez pela física de partículas.


5. O Legado

A Biosphere 2 não nos mostrou como viver noutro planeta. Mostrou-nos porque é que não podemos viver em nenhum outro sítio. Mostrou-nos que a humanidade não existe isolada — vem sempre num “pacote bioesférico”, como diz Nelson. E que a única forma de sobreviver é cuidar desse pacote.

No fundo, todos somos biospherianos.


Para mim, a grande lição da Biosphere 2 não está nos números — no oxigénio que caiu, nos polinizadores que morreram, no dinheiro que se gastou. Está na humildade que o projeto nos obriga a ter. Oito pessoas, 150 milhões de dólares, anos de planeamento, e nem sequer conseguimos manter o ar respirável durante dois anos.

Isto faz-me pensar no que estamos a tentar fazer agora. Marte. A Lua. Bases submarinas. Projetos que custam biliões e que dependem da mesma premissa: que podemos levar a Terra connosco. A Biosphere 2 mostrou que não. Ou melhor, mostrou que podemos — mas ao preço de perceber que cada árvore, cada inseto, cada microrganismo no solo é parte de um sistema que ainda não sabemos replicar.

Se há pergunta que fica depois de ler sobre isto, é a mesma que Mark Nelson faz no livro dele: estamos mesmo prontos para viver noutro planeta quando ainda não percebemos como cuidar deste?


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