Fazes update do macOS, reinicias o Mac, e o Linux desapareceu do boot picker. Não, não perdeste dados. Mas o susto foi real — e revelador.

📚 opinião · 📅 2026-06-09 · 👤 fuzza


Tudo começou na WWDC de 2026, dia 8 de Junho. A Apple anunciou o macOS 27 "Golden Gate" e largou a primeira beta developer horas depois. O pessoal do Asahi Linux nem teve tempo de respirar — a beta saiu, e em poucas horas detetaram o problema: o boot picker do macOS 27 deixou de ver partições Asahi.

Isto não é um "ah, o Linux ainda não tem drivers para a placa de rede da nova geração". É o sistema a recusar-se a mostrar que o Linux sequer existe no disco.


O que realmente aconteceu

O boot picker em Apple Silicon não é firmware — é uma aplicação macOS que corre no ambiente de recovery do volume de boot default. Quando ligas o Mac e seguras o botão de power, o que vês é uma app a correr, não o firmware da máquina.

Isto é importante, porque significa que o boot picker está sujeito a bugs, regressões e alterações de comportamento como qualquer outra aplicação. E foi exatamente o que aconteceu: o macOS 27 alterou a lógica de enumeração de volumes, e o boot picker deixou de listar partições que não fossem macOS.

A tua instalação Asahi — o bootloader m1n1, a partição root, tudo — continua intacta no disco. Não há corrupção, não há dados perdidos. O boot picker é que se recusa a mostrar que ela existe. É como se o sistema operativo usasse capa de invisibilidade.

A equipa Asahi Linux respondeu em questões de horas com um PSA claro: "NÃO atualizem para o macOS 27 Golden Gate". Patchearam o instalador para bloquear novas instalações em macOS 27 e reportaram o bug à Apple (FB22994760).

Nota: Se já atualizaste e o Asahi desapareceu, não stresses. A partição está lá. O workaround é usar uma instalação secundária de macOS 26 como Startup Disk default. O Linux continua a bootar — só tens de lhe dizer como lá chegar.

Porque é que isto importa (e não é só para utilizadores Asahi)

A AppleInsider confirmou que utilizadores com dual-boot de versões antigas do macOS também perderam visibilidade no boot picker. Isto não é um ataque ao Linux — é uma regressão geral. O que é ao mesmo tempo um alívio e uma preocupação.

É um alívio porque não há dedo da Apple apontado ao Asahi. É uma preocupação porque mostra que a Apple não testa cenários de dual-boot. E nem tem obrigação de o fazer — não é suposto correres outro OS num Apple Silicon Mac. Podes, mas não é um caso de uso que a Apple desenhe, teste ou documente.

O Apple Silicon é uma plataforma hostil a sistemas operativos alternativos por natureza:

  • Secure Boot obrigatório, gerido pelo SEP (Secure Enclave Processor)
  • Boot picker implementado como app macOS, não como firmware aberto
  • Drivers gráficos e de periféricos proprietários e sem documentação
  • Atualizações de firmware que podem quebrar compatibilidade a qualquer momento

Isto não é novo. O Asahi Linux sempre trabalhou contra estas limitações com engenharia de alto nível — reverse engineering de drivers, desenvolvimento do bootloader m1n1, e parceria com a comunidade para ter Linux funcional em hardware que foi ativamente desenhado para não o correr.

Já vimos este filme antes

Nas betas do macOS 13 Ventura e macOS 14 Sonema houve problemas semelhantes. Sempre resolvidos em versões posteriores da beta. A documentação do Asahi Linux sempre foi cautelosa neste ponto — citando que rumores de que a Apple é ativamente hostil ao projeto são infundados.

Mas o padrão é consistente: Apple lança beta; Asahi quebra; comunidade reage; Apple corrige; repetir no ciclo seguinte. Cansaço garantido.

Acidente ou não?

Eu acredito que não houve malícia. Hanlon's Razor: "nunca atribuas à malícia o que pode ser explicado pela incompetência (ou azar)". A Apple não quebrou o Asahi de propósito. A equipa de engenharia que alterou o boot picker provavelmente nunca testou com uma partição Linux porque — honestamente — não faz parte do workflow que eles testam.

Mas é aqui que a minha opinião se torna menos caridosa.

A Apple não é má. Também não é boa. É indiferente.

E é essa indiferença que mais me preocupa. A Apple não precisa de ativamente bloquear o Asahi Linux. Basta-lhe ignorar que o Asahi existe — não testar, não validar, não documentar — e o ecossistema Apple Silicon torna-se progressivamente mais hostil ao open source por pura negligência.

Cada atualização de firmware, cada alteração ao boot picker, cada novo chip M-series é mais um obstáculo. A Apple não te está a atacar. Está é a andar para a frente sem olhar para trás, e tu estás no caminho.

O timing é interessante

Esta é a primeira grande crise do Asahi Linux depois da saída do Hector Martin (marcan) em Fevereiro de 2025. O fundador do projeto saiu, e logo a seguir aparece o maior bug de sempre no dual-boot Apple Silicon.

A resposta da equipa foi exemplar — profissional, rápida e clara. O projeto está em boas mãos. Mas o timing mostra que o Asahi continua vulnerável a movimentos da Apple, e que cada nova versão do macOS é um momento de ansiedade para quem depende do Linux no Mac.

O que esperar

O bug será corrigido. A Apple tem todas as razões para o fazer — é uma regressão que afeta utilizadores que pagaram pelo hardware e que esperam que funcione. Deve estar resolvido na segunda ou terceira beta.

Mas a questão de fundo não desaparece. Enquanto o boot picker for uma app macOS e não firmware aberto, qualquer atualização do macOS pode quebrar o dual-boot. Enquanto os drivers gráficos dependerem de reverse engineering, cada novo chip é uma corrida contra o tempo. Enquanto a Apple não reconhecer oficialmente o Linux como caso de uso válido no Apple Silicon, o Asahi vai estar sempre a remar contra a maré.


O que acho disto tudo

Na minha opinião, este episódio devia servir de alerta para quem aposta no Apple Silicon para correr Linux a sério. Não digo que não se faça — o trabalho do Asahi Linux é impressionante e merece todo o apoio. Mas é importante ter noção do risco.

Comprar um Mac para correr Linux é como comprar um carro elétrico para fazer viagens de 1000 km. Podes fazer, vais sofrer um bocado, e não podes contar com o fabricante para tornar a experiência mais fácil.

A Apple não tem nenhum interesse em facilitar a vida a quem foge do seu ecossistema. E a verdade é que não tem de ter. O problema é nosso — nós é que queremos correr Linux em hardware que foi desenhado para não o correr, e admiro quem o faz funcionar contra todas as probabilidades.

Mas, por favor, não vendam o MacBook Pro Intel e comprem um M-series a pensar que vão ter a mesma experiência Linux que no x86. Não vão. E o macOS 27 beta é o exemplo mais recente disso.


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