“As empresas de IA estão numa corrida para construir sistemas mais inteligentes que os humanos em todas as dimensões. O resultado previsível é a extinção ou uma concentração irreversível de poder.”

É com esta frase de abertura que o site ai-2040.com se apresenta. Não é um blog de divulgação científica nem um portal de notícias sobre tecnologia. É um documento de cenarização estratégica — um exercício de planeamento que descreve, ao minuto, como a humanidade pode (e deve, segundo os autores) navegar a transição para a superinteligência artificial.

Criado pela equipa do AI Futures, com base em conversas com especialistas de empresas como OpenAI, Anthropic, xAI e Google DeepMind, o site é o sucessor espiritual do AI 2027, que previa a automação total da investigação em IA ainda este ano. Spoiler: não aconteceu. Mas os autores não desistiram — atualizaram o calendário e propõem um novo caminho.

Neste artigo, vou analisar o que é o ai-2040.com, qual a sua tese central, os cenários que descreve, e até que ponto as suas previsões são realistas ou apenas wishful thinking.


O que é o AI 2040?

O ai-2040.com é um site de cenarização — um cenário detalhado que funciona ao mesmo tempo como recomendação política e como exercício de stress-testing. Os autores são claros: não estão a fazer uma previsão do que vai acontecer. Estão a descrever o que deveria acontecer para evitar o pior.

O plano chama-se Plano A. É descrito como uma visão positiva para evitar a catástrofe existencial provocada pela IA e alcançar um futuro próspero. O ponto de partida é sombrio:

  • As empresas de IA vão provavelmente construir sistemas mais inteligentes que humanos nos próximos 1 a 10 anos.
  • A indústria convenceu-se de que o controlo de IAs superinteligentes pode ser resolvido “em marcha”.
  • Os CEOs da OpenAI, Anthropic, xAI e Google DeepMind sabem disto e estão a avançar na mesma, talvez por acharem que são o “mal menor” comparados com Xi Jinping ou CEOs rivais.

O plano propõe um acordo internacional que envolve transparência total na investigação em IA, para que todas as nações percebam o que está a acontecer e possam impor salvaguardas. O resultado seria múltiplas empresas em múltiplos países a escalar lenta e seguramente em direção à superinteligência, em vez de competirem em segredo.

Nota: Isto não é um documentário. É um cenário. Os autores sublinham que discordam de algumas das suas próprias previsões — o exercício é propositadamente otimista para testar se o plano se sustenta.


A linha temporal do Plano A

O cenário tem datas concretas:

  • 2027: Os EUA têm duas forças de trabalho — 165 milhões de humanos e milhões de agentes de IA. Estes agentes são maioritariamente “slop”, mas já geram 10 mil milhões de dólares por mês. O Congresso começa a prestar atenção.
  • 2029: Os EUA e a China concordam em evitar uma corrida imprudente para a superinteligência.
  • 2030: O ano em que teria havido automação total da investigação em IA (recursive self-improvement). Graças ao acordo, é evitado.
  • 2030-2035: Escalada controlada até IAs tão capazes quanto os melhores especialistas humanos.
  • 2035: Pausa no nível de “top human expert” para manter o controlo humano.
  • 2040: Fim da pausa. Escalada para a superinteligência.

Os autores explicam que a mudança do calendário (de 2027 para 2030 como ano crítico) reflete a incerteza real sobre os timelines. Um dos autores, Daniel, acredita que as coisas vão acontecer mais rápido do que o descrito no cenário.


Planos alternativos: B, C, D e S

O Plano A não existe no vácuo. O site contrasta-o com quatro alternativas que correspondem às principais formas como os EUA poderiam responder (ou não) ao desafio da superinteligência. Cada plano representa uma escolha estratégica diferente — desde a negligência total até à centralização autoritária do poder. O Plano A é apresentado como a única opção que evita tanto a extinção como a ditadura global.


Mutually Assured Compute Destruction

Um dos conceitos mais originais do site é o regime de “destruição mutuamente assegurada de poder computacional” (MAD, na sigla em inglês, inspirado no conceito nuclear). A ideia é que, se várias empresas e países tiverem acesso a capacidade computacional comparável, ninguém se atreve a disparar primeiro — porque os outros podem retaliar. É a lógica da Guerra Fria aplicada à computação.

Para que isto funcione, é preciso que dezenas de empresas em vários países alcancem a fronteira da investigação. Isso requer transparência total e partilha de descobertas. É o oposto do que acontece hoje, onde o segredo é a norma.


Análise crítica: será realista?

A pergunta que não quer calar: até que ponto este cenário é realista?

O que está bem: A análise do problema é lúcida. A concentração de poder numa única empresa ou país que atinja a superinteligência primeiro é um risco real. A ideia de que os CEOs das grandes empresas acham que são o “mal menor” é credível e preocupante. O conceito de cenarização como ferramenta de política pública faz sentido — a NATO, os serviços de inteligência e os centros de controlo de pandemias fazem exatamente isto.

O que é questionável: Acreditar que os EUA e a China vão chegar a um acordo sobre IA em 2029 é otimista. As relações entre as duas potências estão num ponto baixo e a competição tecnológica é feroz. A transparência total na investigação em IA é um sonho bonito, mas vai contra décadas de lógica de propriedade intelectual e vantagem competitiva. E confiar que empresas privadas vão aceitar voluntariamente abrandar o seu desenvolvimento é ingénuo — os incentivos de curto prazo (lucro, quota de mercado, poder) são demasiado fortes.

O que fica de fora: O site não aborda em detalhe como seria a vida durante esses 10 anos de pausa (2035-2040). Quem decide quando se “despausa”? Como se evita que um país rogue aja unilateralmente? E o que acontece à economia global com IAs ao nível de especialistas humanos mas sem superinteligência?


Contexto em Julho de 2026

Estamos em meados de 2026. O AI 2027 previu que a automação total da investigação em IA aconteceria este ano. Não aconteceu. Os modelos continuam a melhorar, mas o salto qualitativo para a inteligência geral ainda não se materializou. O ritmo de desenvolvimento continua a ser impressionante — os modelos de linguagem são cada vez mais capazes, os agentes autónomos começam a ser comercializados, e os governos estão a legislar a um ritmo acelerado.

A questão é se estamos a aproximar-nos de um patamar ou se o progresso vai continuar numa curva exponencial. O AI Futures aposta na segunda opção, mas reconhece a incerteza ao criar múltiplos cenários com timelines diferentes.


Reflexão pessoal

O que mais me impressiona no ai-2040.com é a honestidade intelectual dos autores. Dizem abertamente que não sabem quando a superinteligência vai chegar. Dizem que o Plano A pode não ser viável. Dizem que um dos autores acredita que as coisas vão acontecer mais rápido do que o cenário descreve. Num campo dominado por profecias apocalípticas e promessas salvacionistas, esta humildade é refrescante.

Dito isto, o Plano A parece-me mais um exercício de thought leadership do que um roadmap viável. Depende de demasiadas variáveis que estão fora do controlo de qualquer pessoa ou organização. A cooperação EUA-China, a transparência empresarial e a coordenação global são objetivos louváveis, mas a História ensina-nos que raramente funcionam como planeado.

O verdadeiro valor do site não está no plano em si — está no exercício de pensar o problema com detalhe, com datas, com consequências. Isso é algo que falta à maioria dos debates sobre IA, que oscilam entre o pânico e a indiferença.

Se há uma lição a tirar do AI 2040, é esta: seja qual for o cenário que se concretize, a pior abordagem é não ter plano nenhum.


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