Li esta semana o artigo do Armağan Amcalar na GEA Stack, “The Age of Personalized Hardware Is Coming”, e fiquei a pensar no assunto. A tese é simples, poderosa, e toca numa ferida que qualquer pessoa que já tenha tentado fazer alguma coisa com um wearable conhece bem.

O software já é pessoal. Qualquer miúdo com um agente de IA no editor consegue criar uma dashboard para a equipa dele, uma app para acompanhar uma coleção pessoal, ou a ferramenta que sempre desejou que existisse. A distância entre “gostava que isto existisse” e “vou fazê-lo” nunca foi tão curta.

Mas o hardware? Esse continua fechado.

Uso um smartwatch há anos. Durmo com ele, treino com ele, levo-o para todo o lado. E apesar de todo esse tempo de uso, não posso mudar uma única funcionalidade sem esperar que o fabricante a inclua num update. O dispositivo que está no meu pulso 24 horas por dia é uma caixa selada. Ninguém me pergunta o que eu quero que ele faça. Isto é estranho, em 2026.

O Amcalar tem razão quando diz que os dispositivos vão multiplicar-se independentemente de quem os constrói. Já estamos a vê-lo: relógios, glasses de realidade aumentada, painéis e-paper, controladores de sala, monitores de saúde, companheiros de secretária. Só em wearables vendem-se mais de 600 milhões de unidades por ano. Uma placa ESP32 custa cerca de 7 dólares. O silício está mais barato do que nunca.

O hardware está a chegar, em volume e a preço baixo. A questão não é se vai chegar — é quem vai escrever o software que corre nestes dispositivos.

O argumento que mais me marcou no artigo é sobre os agentes de IA. Os agentes interessantes — os que realmente fazem a diferença — precisam de sensores. Câmara, microfone, movimento, localização, presença, pulso. Nada disto vive num browser. Vive em dispositivos. Um agente que só sabe o que tu escreveste é pior do que um que sabe que estás na oficina com as mãos ocupadas. O contexto físico é a próxima fronteira.

Mas para chegar lá, é preciso quebrar a barreira do toolchain embedded.

Quem já tentou programar um microcontrolador sabe do que falo. Para pôr uma interface decente numa placa de sete dólares, precisas de C++, um SDK do fabricante, um driver de display escrito à mão, contabilidade cuidadosa de cada byte de RAM, um sistema de build, um flasher, e um cabo série para debugging. Nada disto se parece com construir para a web. Por isso é que a maioria das pessoas que sabe construir interfaces para a web pára à beira do dispositivo.

A solução que a GEA Stack propõe — elevar a fronteira do software para que os programadores web possam escrever código que corre nativamente em microcontroladores — é tecnicamente ambiciosa. Mas mais do que isso, é culturalmente importante. Não se trata de transformar toda a gente em engenheira de embebidos. Trata-se de tornar o hardware personalizável por quem o usa.

Isto faz-me lembrar o que aconteceu com a Pebble quando abriu o código. A comunidade voltou. Pessoas que só queriam um relógio pequeno e hackeável que pudessem adaptar ao seu uso. A Meta e a Mentra já permitem construir para os seus glasses com tecnologia web. O Google abriu o Android XR via WebXR. O padrão é claro: quem fabrica os dispositivos está a estender a mão à forma como a maioria do software já é construído.

O hardware personalizado não vai substituir o hardware industrial. Fabricar em volume continua a ser difícil. Certificações são caras. Antenas, rádios e consumos de energia continuam a punir decisões descuidadas. As cadeias de abastecimento são traiçoeiras. Projetar hardware continua a ser engenharia a sério.

Mas o software que corre nesse hardware — esse devia estar aberto a quem o quiser escrever. Um dispositivo, um propósito, um punhado de pessoas que se importam, e uma interface que alguém possa finalmente construir sem pedir permissão à toolchain embedded.

A era do hardware personalizado está a chegar. Os dispositivos vão chegar sozinhos. O que decide se valem a pena é o software. E a pergunta que sempre importou: quem pode escrevê-lo. A minha esperança é que a resposta seja: tu.

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